passaram exactamente 56 dias sobre aquele telefonema, cerca das 11h da manhã. e 62 desde a última vez que te vi. dei-te beijinhos e festas no cabelo branco e macio, disse 'adeus' e tu sorriste. como há muito tempo não via, aliás. voltei para casa animada, estavas bem.
hoje, 62 dias depois, olho para trás e penso que se calhar, de forma inconsciente, o universo permitiu que nos despedíssemos. e de forma carinhosa dissemos 'até sempre'.
digo que foi melhor assim. digo a toda a gente que foi melhor assim e convenço-me de que assim é que está bem. mas é uma grandecíssima mentira, não é? porque uma vida onde tu não existes não pode ser melhor assim. porque NÃO É melhor assim não poder falar-te, ouvir-te, saber de ti.
hoje é dia do Pai. a mãe prestou-te uma homenagem bonita e eu, atónita pela surpresa, não pude conter as lágrimas, espécie de ondas em dia de tempestade.
ali estavas. sorridente, animado, o meu Avô, em dia de celebração de leituras, gosto que soubeste cativar em todos nós.
e assim como quem não quer a coisa, apercebi-me de que isto da dor, da saudade, do amor, é um caminho enorme e constante, que não sei bem se tem um fim.
e que eu, a tua neta, a quem ensinaste a conduzir, a mergulhar e até a andar, a que levaste ao Museu de Arte Antiga num dia de cozido à portuguesa na tasca do outro lado da rua, a quem mostraste como Lisboa é mais bonita vista do eléctrico onde trabalhaste, a neta com quem dançaste na festa do clube de campistas do Entrocamento, e a quem contaste histórias do Tejo quando eras miúdo, ainda está apenas no início do trajecto.
porque as saudades que tenho tuas são imensas e a realização a sério de que não te terei mais começa agora a instalar-se aos poucos, como faca aguçada.
hoje é dia do Pai. e para mim, dia do Avô também. porque não existe um sem o outro. e tu, foste exímio em ambos.
vou continuar a falar contigo, está bem?
1 comentário:
as memórias são das coisas mais bonitas que temos. porque são elas que fazem de nós quem somos e dos outros aquilo que são.
e, mais ainda, quando são tanto.
“Em tudo quanto olhei fiquei em parte. / Com tudo quanto vi, se passa, passo, / Nem distingue a memória / Do que vi do que fui.”
Ricardo Reis, in “Odes”
um beijinho.
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