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19 março 2014

continuar.

passaram exactamente 56 dias sobre aquele telefonema, cerca das 11h da manhã. e 62 desde a última vez que te vi. dei-te beijinhos e festas no cabelo branco e macio, disse 'adeus' e tu sorriste. como há muito tempo não via, aliás. voltei para casa animada, estavas bem.
hoje, 62 dias depois, olho para trás e penso que se calhar, de forma inconsciente, o universo permitiu que nos despedíssemos. e de forma carinhosa dissemos 'até sempre'.
digo que foi melhor assim. digo a toda a gente que foi melhor assim e convenço-me de que assim é que está bem. mas é uma grandecíssima mentira, não é? porque uma vida onde tu não existes não pode ser melhor assim. porque NÃO É melhor assim não poder falar-te, ouvir-te, saber de ti.
hoje é dia do Pai. a mãe prestou-te uma homenagem bonita e eu, atónita pela surpresa, não pude conter as lágrimas, espécie de ondas em dia de tempestade.
ali estavas. sorridente, animado, o meu Avô, em dia de celebração de leituras, gosto que soubeste cativar em todos nós.
e assim como quem não quer a coisa, apercebi-me de que isto da dor, da saudade, do amor, é um caminho enorme e constante, que não sei bem se tem um fim.
e que eu, a tua neta, a quem ensinaste a conduzir, a mergulhar e até a andar, a que levaste ao Museu de Arte Antiga num dia de cozido à portuguesa na tasca do outro lado da rua, a quem mostraste como Lisboa é mais bonita vista do eléctrico onde trabalhaste, a neta com quem dançaste na festa do clube de campistas do Entrocamento, e a quem contaste histórias do Tejo quando eras miúdo, ainda está apenas no início do trajecto.
porque as saudades que tenho tuas são imensas e a realização a sério de que não te terei mais começa agora a instalar-se aos poucos, como faca aguçada.
hoje é dia do Pai. e para mim, dia do Avô também. porque não existe um sem o outro. e tu, foste exímio em ambos.

vou continuar a falar contigo, está bem?


11 março 2014

escrevo. apago.
escrevo de novo. apago de novo.
escrevo mais uma vez e apago mais uma vez.

quero tanto, tanto, quero tanto escrever-te.

15 fevereiro 2014

estavas em todo o lado.

ando para te escrever há uns dias.
preciso de continuar a falar contigo e sobre ti. sobretudo, quero continuar a falar contigo e sobre ti.
o problema é que sempre que tento começar a escrever alguma coisa, uma onda grande, de maré-alta, assalta-me o peito e prende-me os dedos. sinto as têmporas atadas em nó-cego e permaneço imóvel. sentada num sítio qualquer que de repente esqueço o nome. inerte. em frente a um computador como uma folha de papel a fingir. a olhar em frente mas sem nada conseguir focar.

hoje visitei a tua casa pela primeira vez desde que já não há possibilidade de lá voltares. vi-te em todo o lado. nos espinafres do quintal, no limoeiro, no teu escritório de papéis-papéis-papéis. na fechadura que em tempos arranjaste, na tampa da caixa de correio que há anos caía ao chão sempre que de lá se tirava alguma coisa. no banco onde nos sentávamos à conversa em dias de calor, nas flores, na palmeira que quiseste plantar quando tinha uns 8 anos. nas paredes. no muro. no telhado. nas janelas. estavas em todo o lado.
tanto e tão intensamente, que quase podia jurar que te vi, à minha espera, a abrir o portão.

ando para te escrever há uns dias.
mas ainda não é hoje.


31 dezembro 2013

ano novo

não me lixem.
a mudança do ano não muda a vida. e a vida não muda com a mudança do ano.
é só a vulgar passagem de um minuto para o outro.
59...01. já está.
o que muda a vida são aqueles momentos que ficam gravados para sempre debaixo da pele. aqueles que duram mais do que um minuto, mesmo que apenas de um minuto se tratem.
o primeiro beijo. uma reconciliação. a perda irrevogável de alguém que amas. uma vida nova. o momento em que te dizem que conseguiste o emprego dos teus sonhos. o jackpot no euromilhões. um pôr-do-sol de verão e um abraço quente.
um amor à primeira vista. um adeus para sempre. uma revolução ganha pelo povo nas ruas a cantar a pulmões cheios. aquele concerto no coliseu. um reencontro.

e no resto do tempo... que saibamos apreciar o essencial.
eu aqui.
vocês desse lado-estranho.

e o céu que chora desde que começou o dia.

25 dezembro 2013

...por onde andam, vocês?
...
onde estão, que não vos encontro?




guardo-vos. sempre.

23 dezembro 2013

espírito de natal

nunca percebi muito bem as pessoas que, ao chegar o natal, e tendo passado por algum momento menos bom nas suas vidas recentemente - ou não - se deixavam abater por um desânimo acabrunhado.
uma depressão que as impedia de apreciar esta "época tão bonita e alegre". que as tornava feias. que as tornava tristes.
nunca entendi porque, de um momento para o outro, tinham deixado de gostar do natal e da companhia dos outros. das crianças a rasgar papel de embrulho, das luzes foleiras, das filhozes, e acima de tudo,
das músicas de natal.
porque é que, apesar de tudo, não conseguiam passar por cima do que acontecera. nem que por breves instantes.
nunca percebi.

até que o ano de hoje chegou e se prantou com a fúria de um tornado diante de mim, olhando-me de frente, ameaçador.

e as músicas começaram a tocar, como de costume. como sempre. sabe-las de cor. essas músicas que me inundam os ouvidos de memórias - só memórias - como um achincalhar de coração, como que a dizer-me que a vida não pára, que segue em frente, voraz e incontrolável e que não haverá nunca mais nenhum natal como aqueles.
os das músicas. os das memórias.
da lareira, dos embrulhos dele, das filhozes de abóbora dela, do pão no forno a lenha, de nós.
que, enquanto finjo estar tudo bem, como sempre e como dantes, num esforço sobre-humano e em grupo, ele há de estar sozinho num quarto de uma casa que não é a dele, alheio ao mundo e a tudo, num voo alto e para cada vez mais longe. e ela, sozinha na cama de um qualquer quarto de hospital, consciente de que dia é e de tudo o que se passa, da queda a pique e da velocidade da luz que leva a vida.

e pela primeira vez, percebo.
bem fundo, como um tridente constante na garganta e um rufar de tambores no peito, entendo finalmente o que é sentir tanto-tanto, que não cabe em palavras nem se mede em palmos. e cresce a azia. e afundo-me em lágrimas. e contenho soluços a cada minuto.

e agora já sei o que é querer só que este dia passe. que se arrumem os enfeites. que se acabem os restos, que se cale a música. essa infernal música que promete aquilo que não pode cumprir.

e compreendo, profunda e dolorosamente, como fui egoísta até agora.



este ano, sou eu que não sei celebrar o natal.







19 novembro 2013

gosto-vos tanto.

e sim, é mesmo assim que quero começar. afinal, a isto tudo se resume.

gosto-vos tanto, e com tanta força que é quase violento visitar-vos agora. um murro no abdómen de cada vez que vos encontro, cada vez que vos deixo.
vocês, tão infinitamente bonitos, tão profundamente importantes.
costumavam ter tanta força, vocês. costumavam segurar-me pela mão, tomar conta de mim, guardar-me. ensinaram-me a vida, o mundo, as contas, as histórias, as recordações, o tempo. vocês.
tu e ele. ele que vive num mundo quase paralelo, em esforço para se manter à tona. ele, tão mimoso, tão espirituoso, como sempre. e apesar de tanto e de tudo, ainda ele.
tu que te seguras ao meu braço para não cair com essa mão frágil que um dia me ensinou a ralar casca de laranja para "dar gostinho ao bolo".

queria tudo
queria tanto

e nada posso, senão visitar-vos e a cada dia convencer-me de que estão melhor, de que não havia outra solução.
não chores, avó.
por favor.

gosto-vos tanto.



04 novembro 2013


como regressar a casa.
respira fundo.
estás quase lá.










21 outubro 2013

há dias tramados.
momentos, para dizer a verdade - que o dia foi muito bom.
um conjuntura espacial e extraterrestre qualquer faz com que tudo, no espaço de apenas 1 hora, o que podia correr menos bem, assim o seja.
suponho que não controlamos o que sentimos e que há também momentos em que vomitar aquilo que nos faz mal é a solução. mas, acérrima defensora do think twice, que é como quem diz do pensa-melhor-antes-de-falares, fico lixada.
lixada que não saibam ter comigo o mesmo cuidado que em horas idas tive. porque há coisas que se podem dizer de todas as formas, menos dessa.
o impulso é um gajo tramado.
calculo que o erro - numa espécie de confirmação da razão alheia - seja de facto meu, que por não estar habituada a ser honesta, não sei lidar com a frontalidade dos demais.
porque não aprendes a dizer o que sentes?
e ficam as palavras penduradas, à espera que alguém as arrume. e se ninguém lhes pegar, mais tarde ou mais cedo das duas uma: ou caiem e são esquecidas ou ganham vincos e ficam assim para sempre.

16 outubro 2013

cantar amor

regressar ao alfabeto. procurar letras que juntas, formarão palavras, significados. contarão mundos e dirão amor.
regressar, enfim, ao que sempre lá esteve para dizer o que nem sempre se ousa.
o toque leve da ponta dos dedos para não fazer barulho, para não te acordar. imagino que antigamente seria mais fácil.
a sobreposição de acontecimentos que, uns nos outros, encerram em si os dias, os meses, todo o tempo em que estivemos ao longe. que é como quem diz de lá a olhar para cá.
observar-te é poesia. encantada por essa voz, fecho os olhos e aprendo. é assim que se faz, vês.
é assim que se canta a vida e se dança amor. serão assim as manhãs ao teu lado. os olhos brilhantes, de menina-mulher no balanço de um vento suave, quase-brisa, ao calor de uma luz amena, quase-sol.
se me perguntassem, diria que és um Fá.
frames separados de uma mesma fita. o filme da minha vida.
hei de conseguir contar ao mundo todo de que é que somos feitos.

[escrever enquanto sereno, dormes ao meu lado. ]


04 julho 2013

.

há pessoas que só merecem que as mandemos à merda.

02 julho 2013

sabes lá.

ah caramba.
que podes ter o dinheiro. o dinheiro todo do mundo. o meu e o dos outros todos.
podes ser o dono, o senhor director, o doutor.
podes ter o meu futuro enjaulado numa mão e o meu contrato de trabalho em branco na outra.
podes fazer o que quiseres. mandar, desmandar, decidir, podes até ser o maior filho da p*ta ao cimo da terra.
o que quiseres.
faz o que quiseres.

que nunca, nunca terás propriedade sobre a minha felicidade. essa, estará sempre trancada cá dentro, com acesso reservado a quem eu quiser. nessa, mando eu.
que nunca, nunca saberás o que é ser feliz assim, a sério. com tudo a que se tem direito.
que nunca, nunca sentirás a água daquele rio - naquela montanha - a purificar-te o corpo e a alma nem tão pouco saberás o que se sente quando se dança assim, ali e com eles todos.

sabes lá o que é ser feliz, tu.


20 junho 2013

é possível controlar o que se sente?
é possível controlar o que se sente e consequentemente, o que se faz?
a pergunta eterna.
viver com ela durante quase 3 décadas, é carregar uma mochila pesada aos ombros [talvez daí as dores].

primeiro, há que perguntar porque precisas da resposta.
porque precisas de controlar o que sentes?
porque precisas de controlar o que sentes e consequentemente, o que fazes?
será que te procuras encaixar numa determinada imagem? e porque será que para ti, tudo tem de estar arrumado no devido lugar? a desarrumação tira-me do sério, dizes.
expectations, expectations. o costume.
o que os outros esperam de ti. o que tu esperas dos outros. o que pensas que os outros esperam de ti.
[era quebrá-las a todas, uma a uma. parti-las contra o chão e pô-las no lixo, essas parvas.]
todas as coisas do mundo ocupam um lugar próprio. uma vez fora dele, deixa de ser possível justificá-las, reconhecê-las. é por isso necessário que estejam sempre arrumadas. para que as possamos ver com clareza e delas usufruir, segundo os princípios do livre arbítrio e não da arbitrariedade.

e neste momento, está tudo achincalhado, desarrumado, desalinhado, fora de sítio e de lugar. cá dentro, bem fundo, onde só eu sinto e só tu sabes.
cá dentro, onde te queria dizer melhor, onde me queria saber mais.

preciso de controlar o que sinto.
preciso de controlar o que sinto para consequentemente, parar de me sentir assim.



18 junho 2013

o liceu

e a vida parecia-nos eterna naqueles tempos. dias controversos, de descoberta, de procuras, de ânsias, dias cheios-quase-vazios, dias de tudo e de quase-nada. 
passou já uma década. dez anos mais 1 ou 2. onze ou doze anos nos separam daquelas tardes na relva em frente à sala de aula, por entre cigarros, testes, conversas e o toque da campainha. o mundo inteiro à nossa frente e todas as esperanças que nele cabem. 
tantos os sonhos, tantos os desejos. 

tantos anos depois, quem somos afinal e onde fomos parar? [será que parámos, ou continuamos caminho com esperanças, sonhos e desejos diferentes?]
e eu, 
que já tenho cabelos brancos.