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31 janeiro 2012

silêncios


às vezes não há mesmo nada para dizer.
acrescentar.

ou até haveria, mas é melhor ficar assim mesmo.

28 janeiro 2012

manual da auto-comiseração #1

[a propósito de uma música recente]


foi sempre nos momentos em que fiquei em branco
que soube
não ser mais importante.

27 janeiro 2012

onde

por onde andámos, nós?

o momento em que o mundo explode nunca se esquece. aquele momento maior do que o tempo todo do mundo, em que tudo parece possibilidade, fica guardado sempre junto a ti.
não é assim?
depois acordas um dia e apercebes-te que o tempo afinal encolheu e, levou o mundo com ele. que nada será mais possível.
e esse momento também nunca se esquece.
não é assim?

e segues em frente, no frio de um janeiro imenso, na secreta esperança de esquecer tudo isto.

por onde andamos agora, nós?

26 janeiro 2012

danço, logo existo.

e o tempo parou mesmo.
afinal o tempo pára. os ponteiros em sereno descanso, de relógios que deixam de contar.
o mundo pára.
a vida abranda.
o coração estremece.
segue o corpo, como se voasse e, voa mesmo, num compasso natural, ondulante, harmonioso.
segue o corpo, seguem os pés. segue a cabeça, que voa dali para fora, para outra dimensão. distante, profunda, infinita.
fala-nos a música. a música fala connosco, também ouves?

afinal o tempo pára mesmo.
e eu parei com ele.
e eu ainda lá estou.

basta-me fechar os olhos.
e ouvir o que a música me diz.

e eu pergunto-me

para quê álcool e drogas,

                                                              quando podemos simplesmente dançar?

24 janeiro 2012

segura-te.

tens uma janela escancarada à tua frente. uma corrente de ar que te trespassa, como vidro cortante, gelado. os olhos fecham-se. agarras-te à cadeira, seguras-te na madeira velha como se dela tudo dependesse. com a força que nem sabias ter. mãos vermelhas, enrugadas de tanto apertar.

"segura-te com força senão o vento leva-te"

respiras fundo. susténs a respiração. só mais uns minutos, tens de te aguentar.
no instante em que abres os olhos, vês a sombra ao teu lado. começa na cadeira. é uma sombra cinzenta, mais cinzenta que o próprio cinzento. escura, cansada, contorcida. uma figura que se dobra sobre si, como se em desespero estivesse.

"segura-te com força"

acabas por ceder. cais. o vento leva-te. sentes o cimento contra o torso, o chão debaixo da pele.

[...]

acordas aquilo que te parecem três dias depois.
sendo na verdade o mesmo dia, exactamente três minutos depois de tudo isto, abres os olhos com vigor. adormeceste profundamente, o sono dos arrependidos, dos valentes, do mundo inteiro.
ainda meio entorpecida levantas-te, diriges-te à janela, entretanto fechada, como todas as manhãs, todos os dias. como sempre.

tudo permanece igual. a cadeira arrumada junto à secretária. os papéis organizados, arrumados. até o dia lá fora parece sereno demais. não corre uma aragem.
sentas-te à secretária.
começas a escrever. vorazmente, como se fosse fome.
páras. recomeças. páras. recomeças. páras.
e de repente, num assalto, um eco na memória. lembras-te.

só há uma coisa fora de lugar. ao teu lado, a terceira gaveta de cima aberta.
espreitas com atenção: fora de lugar uma fotografia daquele dia, naquela tarde, daquele lugar, dessas pessoas que já nem reconheces, mas que dizem um dia já teres sido tu.
a cabeçe estremece. o peito salta.

"segura-te com força senão o vento leva-te de novo"


gaveta fechada.



[considerações sobre a memória fotográfica e sua causa-efeito]

23 janeiro 2012

paradoxos

o paradoxo que é a vida.
o paradoxal das coisas que nos rodeiam, daquilo que somos, queremos ser, vemos, sentimos, desejamos, fazemos e vivemos.
o paradoxo de arranjar palavras caras que-eu-sou-muito-intelectual-de-livro-culto-à-mesa-de-um-café e não saber o que lhes fazer. se metê-las num caderninho moleskininho bonitinho e pretinho como manda a lei e guardá-las para sempre numa gavetaou, enfiá-las num blogue todo moderno, em adolescente convicção de grandeza e profundíssima profundidade poética.
as palavrinhas arranjadinhas por categorias.
os pontos finais, as vírgulas, as exclamações e os parêntesis. ai os parêntesis. [quando tiver um cão hei de apelidá-lo de parênteSI. assim mesmo, no singular.]
as palavrinhas de um caderno, escritas numa paragem de autocarro, em Benfica ou em frente ao rio - que sempre fica melhor - as palavrinhas que são as minhas.

o paradoxo de tudo isto e de mais um pouco.



de escrever sobre isso e publicá-lo num blogue todo moderno.

o que é um paradoxo, afinal?

22 janeiro 2012

grandes dias

há dias maiores que um dia normal.
dias largos, grandes, cheios.

há dias surpreendentes.

20 janeiro 2012

Dançar para levitar

a dança como instrumento, como piano, contrabaixo, violino.
a dança como ansiolítico. como pausa. como mergulho no mar.
a dança como silêncio cá dentro.
corpo solto. corpo leve, livre.
num intricado entrelaçado feito de minutos quase eternos, quase infinitos, ao som de uma mazurka.
corpos desconhecidos que conversam entre si. que se seguem.

[ electricidade estática ]

"danças?"
"claro."

assim começa a história.
não se conhecem, nem tão pouco sabem o nome um do outro.
sabem apenas que dançam. e conversam a dançar. a dança como conversa.
ele fala, ela responde. ele fala, ela responde.
duas mãos que se beijam.
quatro pernas que se cumprimentam.
dois braços que se abraçam.
dois corpos que se guiam.

um instante. alguns minutos. uma vida inteira.

17 janeiro 2012

constatação

e o tempo das palavras começa a esgotar-se...

um destes dias acaba esse tempo. muito em breve, pressinto.
nesse dia, acabará o que já se prolonga demasiado. a espera.
mas quando esse tempo acabar,
e quando as palavras tentarem entrar,
não terão espaço. não entrarão. ficarão à porta. à espera de ser lidas, ditas, ouvidas, escritas, daqui a muito, muito tempo, num dia igual aos outros, onde despropositadamente, por lapso, ao acaso, serão encontradas. e a porta então aberta. por acidente.

um destes dias o tempo das palavras termina.
pressinto.

e isto é só uma constatação.

14 janeiro 2012

essa luz



na passagem dos anos
das pessoas, dos autocarros ruidosos, do barco ao longe
no rio largo, prateado
essa luz
dessa cidade
esse barulho ao fundo, sempre esse barulho ao fundo
nessa cidade

na passagem de todas as coisas
de todas as pessoas
de todos os livros,
todas as histórias





passam os anos
passam as pessoas
algumas que vão ficando
nas letras impressas daquilo que é nosso todos os dias
passam os autocarros ruidosos
e as carruagens de metro lá em baixo

passam os anos
passam as pessoas

mas a cidade continua.