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31 janeiro 2012

a ciência dos sonhos

olhos arregalados, expectantes. a mão bem esticada lá no alto, "quero falar, quero falar!", segredinhos envergonhados e a imaginação a voar sala de aula fora.
"O que queres ser quando cresceres?"
um clássico, de facto. mas desta vez numa outra língua; hoje é dia de falar de profissões. melhor, de sonhos. daqueles com sabor a caramelo, chocolate e morango. dos coloridos, grandes, maior que própria altura. daqueles que existem hoje e talvez amanhã já tenham desaparecido.
"quero ser escritor. quero ser construtor de legos. quero ser professora. (como eu?) quero ser médico, como o meu pai! quero ser compositor de música ou talvez mágico. jogador de futebol. cozinheiro, para fazer doces todos os dias. quero ser rico e dar emprego a toda a gente. quero ser espião (é spy que se diz, não é?). quero ser piloto de balões de ar, daqueles com um grande cesto. quero ser piloto de ferraris. bailarina. director desta escola. pintor. ladrão do meu próprio banco. vendedor de pipocas. eu quero escrever as tabuletas pequeninas que estão por baixo dos quadros nos museus."
e eis que depois de muito viajar, lá no canto da sala, o Jaime põe o dedo no ar e diz:
"eu quero ser um grifo"

e dou-me conta de que na maior parte das vezes aprendo eu muito mais com eles, do que eles comigo.
aprendo a sonhar de olhos fechados outra vez. e consigo quase imaginar-me num tapete voador a dar a volta ao mundo.

já agora, o que é um grifo?

silêncios


às vezes não há mesmo nada para dizer.
acrescentar.

ou até haveria, mas é melhor ficar assim mesmo.

28 janeiro 2012

manual da auto-comiseração #1

[a propósito de uma música recente]


foi sempre nos momentos em que fiquei em branco
que soube
não ser mais importante.

27 janeiro 2012

onde

por onde andámos, nós?

o momento em que o mundo explode nunca se esquece. aquele momento maior do que o tempo todo do mundo, em que tudo parece possibilidade, fica guardado sempre junto a ti.
não é assim?
depois acordas um dia e apercebes-te que o tempo afinal encolheu e, levou o mundo com ele. que nada será mais possível.
e esse momento também nunca se esquece.
não é assim?

e segues em frente, no frio de um janeiro imenso, na secreta esperança de esquecer tudo isto.

por onde andamos agora, nós?

26 janeiro 2012

danço, logo existo.

e o tempo parou mesmo.
afinal o tempo pára. os ponteiros em sereno descanso, de relógios que deixam de contar.
o mundo pára.
a vida abranda.
o coração estremece.
segue o corpo, como se voasse e, voa mesmo, num compasso natural, ondulante, harmonioso.
segue o corpo, seguem os pés. segue a cabeça, que voa dali para fora, para outra dimensão. distante, profunda, infinita.
fala-nos a música. a música fala connosco, também ouves?

afinal o tempo pára mesmo.
e eu parei com ele.
e eu ainda lá estou.

basta-me fechar os olhos.
e ouvir o que a música me diz.

e eu pergunto-me

para quê álcool e drogas,

                                                              quando podemos simplesmente dançar?

24 janeiro 2012

segura-te.

tens uma janela escancarada à tua frente. uma corrente de ar que te trespassa, como vidro cortante, gelado. os olhos fecham-se. agarras-te à cadeira, seguras-te na madeira velha como se dela tudo dependesse. com a força que nem sabias ter. mãos vermelhas, enrugadas de tanto apertar.

"segura-te com força senão o vento leva-te"

respiras fundo. susténs a respiração. só mais uns minutos, tens de te aguentar.
no instante em que abres os olhos, vês a sombra ao teu lado. começa na cadeira. é uma sombra cinzenta, mais cinzenta que o próprio cinzento. escura, cansada, contorcida. uma figura que se dobra sobre si, como se em desespero estivesse.

"segura-te com força"

acabas por ceder. cais. o vento leva-te. sentes o cimento contra o torso, o chão debaixo da pele.

[...]

acordas aquilo que te parecem três dias depois.
sendo na verdade o mesmo dia, exactamente três minutos depois de tudo isto, abres os olhos com vigor. adormeceste profundamente, o sono dos arrependidos, dos valentes, do mundo inteiro.
ainda meio entorpecida levantas-te, diriges-te à janela, entretanto fechada, como todas as manhãs, todos os dias. como sempre.

tudo permanece igual. a cadeira arrumada junto à secretária. os papéis organizados, arrumados. até o dia lá fora parece sereno demais. não corre uma aragem.
sentas-te à secretária.
começas a escrever. vorazmente, como se fosse fome.
páras. recomeças. páras. recomeças. páras.
e de repente, num assalto, um eco na memória. lembras-te.

só há uma coisa fora de lugar. ao teu lado, a terceira gaveta de cima aberta.
espreitas com atenção: fora de lugar uma fotografia daquele dia, naquela tarde, daquele lugar, dessas pessoas que já nem reconheces, mas que dizem um dia já teres sido tu.
a cabeçe estremece. o peito salta.

"segura-te com força senão o vento leva-te de novo"


gaveta fechada.



[considerações sobre a memória fotográfica e sua causa-efeito]

23 janeiro 2012

paradoxos

o paradoxo que é a vida.
o paradoxal das coisas que nos rodeiam, daquilo que somos, queremos ser, vemos, sentimos, desejamos, fazemos e vivemos.
o paradoxo de arranjar palavras caras que-eu-sou-muito-intelectual-de-livro-culto-à-mesa-de-um-café e não saber o que lhes fazer. se metê-las num caderninho moleskininho bonitinho e pretinho como manda a lei e guardá-las para sempre numa gavetaou, enfiá-las num blogue todo moderno, em adolescente convicção de grandeza e profundíssima profundidade poética.
as palavrinhas arranjadinhas por categorias.
os pontos finais, as vírgulas, as exclamações e os parêntesis. ai os parêntesis. [quando tiver um cão hei de apelidá-lo de parênteSI. assim mesmo, no singular.]
as palavrinhas de um caderno, escritas numa paragem de autocarro, em Benfica ou em frente ao rio - que sempre fica melhor - as palavrinhas que são as minhas.

o paradoxo de tudo isto e de mais um pouco.



de escrever sobre isso e publicá-lo num blogue todo moderno.

o que é um paradoxo, afinal?

22 janeiro 2012

grandes dias

há dias maiores que um dia normal.
dias largos, grandes, cheios.

há dias surpreendentes.

20 janeiro 2012

Dançar para levitar

a dança como instrumento, como piano, contrabaixo, violino.
a dança como ansiolítico. como pausa. como mergulho no mar.
a dança como silêncio cá dentro.
corpo solto. corpo leve, livre.
num intricado entrelaçado feito de minutos quase eternos, quase infinitos, ao som de uma mazurka.
corpos desconhecidos que conversam entre si. que se seguem.

[ electricidade estática ]

"danças?"
"claro."

assim começa a história.
não se conhecem, nem tão pouco sabem o nome um do outro.
sabem apenas que dançam. e conversam a dançar. a dança como conversa.
ele fala, ela responde. ele fala, ela responde.
duas mãos que se beijam.
quatro pernas que se cumprimentam.
dois braços que se abraçam.
dois corpos que se guiam.

um instante. alguns minutos. uma vida inteira.

17 janeiro 2012

constatação

e o tempo das palavras começa a esgotar-se...

um destes dias acaba esse tempo. muito em breve, pressinto.
nesse dia, acabará o que já se prolonga demasiado. a espera.
mas quando esse tempo acabar,
e quando as palavras tentarem entrar,
não terão espaço. não entrarão. ficarão à porta. à espera de ser lidas, ditas, ouvidas, escritas, daqui a muito, muito tempo, num dia igual aos outros, onde despropositadamente, por lapso, ao acaso, serão encontradas. e a porta então aberta. por acidente.

um destes dias o tempo das palavras termina.
pressinto.

e isto é só uma constatação.

14 janeiro 2012

essa luz



na passagem dos anos
das pessoas, dos autocarros ruidosos, do barco ao longe
no rio largo, prateado
essa luz
dessa cidade
esse barulho ao fundo, sempre esse barulho ao fundo
nessa cidade

na passagem de todas as coisas
de todas as pessoas
de todos os livros,
todas as histórias





passam os anos
passam as pessoas
algumas que vão ficando
nas letras impressas daquilo que é nosso todos os dias
passam os autocarros ruidosos
e as carruagens de metro lá em baixo

passam os anos
passam as pessoas

mas a cidade continua.

06 janeiro 2012

numa caixa de correio

Acordas e sais de casa. Determinada, com o futuro debaixo do braço e o passado pendurado na carteira, esperando a libertação de um e o começo do outro.
Chaves na ignição. O caminho de sempre, o caminho do costume. O rádio por companhia, o batuque das mãos ao volante.
"Será como tirar um penso rápido no joelho" pensas. Está tudo calculado: estacionar, entrar, arrumar o que falta, entregar a chave, sair, ir embora. Sem olhar para trás, sem dizer adeus. "Não posso olhar para trás, não consigo dizer adeus."
Até que por fim vem a realidade, como estalada seca na cara ao frio. Rápida, sem aviso, de repente. De rompante.
Ali estás. Naquela mesma rua, naquela mesma casa. As paredes vazias de quadros e cheias, tão cheias de tudo o resto.
Um último olhar, uma última volta.
O primeiro dia, o dia das mudanças, as sardinhadas no quintal, as noites de telepizza e filme, as festarolas com os amigos, o jogo do quarto escuro como miúdos da 3ª classe, o acordar feliz de manhã, as gargalhadas sonoras, o preparar das viagens, os regressos tardios. E por fim o silêncio ensurdecedor. As horas vazias, sozinhas. As palavras amargas como limão. As noites de lágrimas no canto do olho e de garganta dorida.
Dlim-dlão. A campainha.
Enfim está tudo tratado. "Deixo a chave no correio ainda hoje."

Uma última queda nos degraus. Uma despedida como deve ser. Toma-lá-para-te-lembrares. Levas daqui um joelho esfolado e uma cicatriz duradoura, só para que este momento mais doloroso que a própria dor fique gravado em ti. Na pele. Literalmente.
Uma história inteira dentro de uma caixa de correio. Uma vida inteira numa estúpida e feia caixa de correio.
A tal dor na garganta. Como quando fingia na escola que estava tudo bem quando ralhavam comigo. "Não posso chorar. Não posso chorar. Não posso chorar."

Uma faca, uma lança, um serrote, um espeto de barbecue, um garfo, espetados no estômago todos ao mesmo tempo quando te vejo subir a rua.

Não vejo a estrada. Está a chover contra os meus olhos, embaciados, violentamente molhados. O rádio no volume máximo para que lá fora ninguém ouça o que solto.
15 minutos de desespero. Conduzo como tempestade à noite.

Estaciono noutro bairro, noutra rua, noutra luz.
Toco à campainha, subo. A bola de ânimo recebe-me, de sorriso escancarado, como quem mima, como quem ama, como quem cuida. Como é possível que uma criança de 5 meses tome conta de mim?
E olho para ela e tenho a certeza de que vai ficar tudo bem.
Será um novo ano. Uma literal vida nova.
Ar fresco. Ar leve.
Eu aqui. Tu aí. Nós algures entre isto tudo e os outros todos.
Havemos de arranjar uma forma. Havemos de descobrir o caminho.

Feliz Ano Novo.