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06 fevereiro 2012

a indiferente leveza do ser

'opá e podiam-se escrever tantas coisas sobre isto.
sobre isto e sobre nada, realmente. que já pouco resta a dizer.
resta, isso sim, andar para a frente, caramba. de cabeça erguida, a fingir que "estamos bem, obrigadinha", que saúde é que é preciso. 
enfrentar os dias como se não fossem todos iguais, e a vida sempre a mesma. como se fosse tudo novidade e não soubéssemos de antemão o que vai acontecer. que, no fundo, é sempre o mesmo.
a verdade é que sobes sempre a mesma rua, voltas sempre à mesma casa e dormes sempre na mesma cama. a verdade é que às vezes isso sabe bem e outros dias há em que sabe a leite estragado, e que por preguiça lá vai ficando na porta do frigorífico.
finges que assim é que estás bem, que assim é que vale a pena.
e sais de casa com os phones bem pregadinhos aos ouvidos, para ver se disfarça o trânsito. na rua e na cabeça. pequenina-cabeça-que-não-páras-e-já-me-estás-a-irritar.
como se, na verdade, alguém se importasse.
"mais um dia, mais uma viagem."
quem pára, não anda.

04 fevereiro 2012

notas de uma música alegre

estava um frio-que-não-se-podia, apesar do sol e, a cabeça tilintava como campainha estridente. tliiiim tliiiim...!
aterras no meio do que te parece Lisboa, mas que te sabe a uma cidade marroquina qualquer, bem no meio da medina: vendedores, regateios, trocas, quinquilharia, tralha-que-nunca-mais-acaba, magotes e magotes de gente. o encanto da feira da ladra ao sábado de manhã.
o rio parece cumprimentar-te com um doce balançar de maré cheia e a sombra que traz o vento diz-te bom dia como quem vive em aldeia.
no meio da multidão algo te faz parar. a música que trazes nos ouvidos e que mais ninguém ouve, chama por ti como quem quer dançar ali mesmo, naquele meio, naquela medina, naquele alcatrão forrado a parafusos, telefones, sapatos mais gastos que o chão, grafonolas, vinis e cães de loiça.
fechas os olhos e sorris. é a música outra vez a chamar por ti.
deixas-te levar por ela, que me interessa se me acham esquisita?
invade-te uma felicidade estranha, esta a que já te vais habituando, pelo menos uma vez por semana. é uma felicidade nova, diferente de tudo.
são as tuas pernas que balançam sozinhas, os braços que vão atrás de um corpo autónomo, que rodopia sem que o possas controlar. é a tua cabeça a levitar e o teu coração a estremecer.
observas-te de cima, como quem flutua em teu redor e vês uma pessoa que já não conhecias. vês uma miúda com o mesmo nome que tu, e que até se parece contigo, de sorriso escancarado só porque sim. só porque é sábado, só porque está sol, só porque está na feira da ladra. só porque ouve uma música bonita. só porque dança.

e apercebes-te de que te estás a reconstruir aos poucos, a descobrir aos bocados e, a colares-te com super-cola 3, para que nunca mais deixes de ser fiel à melodia que te compõe.

03 fevereiro 2012

que mundo este

uma criança de sete anos ter um iPhone é... simplesmente estúpido.
uma de nove receber um iPad pelo Natal, estúpido a dobrar.
não me lixem.

02 fevereiro 2012

manual da auto-comiseração #2

"já alguma vez foste a melhor?"
tantas histórias, tantos invernos, tantas lágrimas numa só pergunta.
fico-me pelo quase. o quase lá. o lá perto. o penúltimo degrau da escada.
é espreitar da janela sem tocar. é ouvir baixinho sem denunciar. é sorrir de longe sem ninguém ver. é guardar cá dentro com tanta força que a garganta arde.
concluo que o importante não é o resultado mas o caminho. mas logo a seguir tudo isso me sabe a balelas, a clichés, histórias inventadas por vencedores de peito cheio. eles-sabem-lá-o-que-dizem.
na maior parte do tempo é sentires-te quase bem. no tempo que sobra, é levares com uma estalada de realidade dorida na cara. é não entenderes por que é que contigo a história está sempre em repeat.
por que é que és composta de poemas inacabados, notícias incompletas, costuras descosidas, quadros semi-vazios. copos meio-cheios.
entra em cena a malabarista: sempre que um malabar cai, tenta de novo. e espera um dia conseguir.

01 fevereiro 2012

coincidências

"nasce o linho dentro de água
anda sempre regadinho
assim meus olhos com mágoa
parecem irmãos do linho."

31 janeiro 2012

a ciência dos sonhos

olhos arregalados, expectantes. a mão bem esticada lá no alto, "quero falar, quero falar!", segredinhos envergonhados e a imaginação a voar sala de aula fora.
"O que queres ser quando cresceres?"
um clássico, de facto. mas desta vez numa outra língua; hoje é dia de falar de profissões. melhor, de sonhos. daqueles com sabor a caramelo, chocolate e morango. dos coloridos, grandes, maior que própria altura. daqueles que existem hoje e talvez amanhã já tenham desaparecido.
"quero ser escritor. quero ser construtor de legos. quero ser professora. (como eu?) quero ser médico, como o meu pai! quero ser compositor de música ou talvez mágico. jogador de futebol. cozinheiro, para fazer doces todos os dias. quero ser rico e dar emprego a toda a gente. quero ser espião (é spy que se diz, não é?). quero ser piloto de balões de ar, daqueles com um grande cesto. quero ser piloto de ferraris. bailarina. director desta escola. pintor. ladrão do meu próprio banco. vendedor de pipocas. eu quero escrever as tabuletas pequeninas que estão por baixo dos quadros nos museus."
e eis que depois de muito viajar, lá no canto da sala, o Jaime põe o dedo no ar e diz:
"eu quero ser um grifo"

e dou-me conta de que na maior parte das vezes aprendo eu muito mais com eles, do que eles comigo.
aprendo a sonhar de olhos fechados outra vez. e consigo quase imaginar-me num tapete voador a dar a volta ao mundo.

já agora, o que é um grifo?

silêncios


às vezes não há mesmo nada para dizer.
acrescentar.

ou até haveria, mas é melhor ficar assim mesmo.

28 janeiro 2012

manual da auto-comiseração #1

[a propósito de uma música recente]


foi sempre nos momentos em que fiquei em branco
que soube
não ser mais importante.

27 janeiro 2012

onde

por onde andámos, nós?

o momento em que o mundo explode nunca se esquece. aquele momento maior do que o tempo todo do mundo, em que tudo parece possibilidade, fica guardado sempre junto a ti.
não é assim?
depois acordas um dia e apercebes-te que o tempo afinal encolheu e, levou o mundo com ele. que nada será mais possível.
e esse momento também nunca se esquece.
não é assim?

e segues em frente, no frio de um janeiro imenso, na secreta esperança de esquecer tudo isto.

por onde andamos agora, nós?

26 janeiro 2012

danço, logo existo.

e o tempo parou mesmo.
afinal o tempo pára. os ponteiros em sereno descanso, de relógios que deixam de contar.
o mundo pára.
a vida abranda.
o coração estremece.
segue o corpo, como se voasse e, voa mesmo, num compasso natural, ondulante, harmonioso.
segue o corpo, seguem os pés. segue a cabeça, que voa dali para fora, para outra dimensão. distante, profunda, infinita.
fala-nos a música. a música fala connosco, também ouves?

afinal o tempo pára mesmo.
e eu parei com ele.
e eu ainda lá estou.

basta-me fechar os olhos.
e ouvir o que a música me diz.

e eu pergunto-me

para quê álcool e drogas,

                                                              quando podemos simplesmente dançar?

24 janeiro 2012

segura-te.

tens uma janela escancarada à tua frente. uma corrente de ar que te trespassa, como vidro cortante, gelado. os olhos fecham-se. agarras-te à cadeira, seguras-te na madeira velha como se dela tudo dependesse. com a força que nem sabias ter. mãos vermelhas, enrugadas de tanto apertar.

"segura-te com força senão o vento leva-te"

respiras fundo. susténs a respiração. só mais uns minutos, tens de te aguentar.
no instante em que abres os olhos, vês a sombra ao teu lado. começa na cadeira. é uma sombra cinzenta, mais cinzenta que o próprio cinzento. escura, cansada, contorcida. uma figura que se dobra sobre si, como se em desespero estivesse.

"segura-te com força"

acabas por ceder. cais. o vento leva-te. sentes o cimento contra o torso, o chão debaixo da pele.

[...]

acordas aquilo que te parecem três dias depois.
sendo na verdade o mesmo dia, exactamente três minutos depois de tudo isto, abres os olhos com vigor. adormeceste profundamente, o sono dos arrependidos, dos valentes, do mundo inteiro.
ainda meio entorpecida levantas-te, diriges-te à janela, entretanto fechada, como todas as manhãs, todos os dias. como sempre.

tudo permanece igual. a cadeira arrumada junto à secretária. os papéis organizados, arrumados. até o dia lá fora parece sereno demais. não corre uma aragem.
sentas-te à secretária.
começas a escrever. vorazmente, como se fosse fome.
páras. recomeças. páras. recomeças. páras.
e de repente, num assalto, um eco na memória. lembras-te.

só há uma coisa fora de lugar. ao teu lado, a terceira gaveta de cima aberta.
espreitas com atenção: fora de lugar uma fotografia daquele dia, naquela tarde, daquele lugar, dessas pessoas que já nem reconheces, mas que dizem um dia já teres sido tu.
a cabeçe estremece. o peito salta.

"segura-te com força senão o vento leva-te de novo"


gaveta fechada.



[considerações sobre a memória fotográfica e sua causa-efeito]

23 janeiro 2012

paradoxos

o paradoxo que é a vida.
o paradoxal das coisas que nos rodeiam, daquilo que somos, queremos ser, vemos, sentimos, desejamos, fazemos e vivemos.
o paradoxo de arranjar palavras caras que-eu-sou-muito-intelectual-de-livro-culto-à-mesa-de-um-café e não saber o que lhes fazer. se metê-las num caderninho moleskininho bonitinho e pretinho como manda a lei e guardá-las para sempre numa gavetaou, enfiá-las num blogue todo moderno, em adolescente convicção de grandeza e profundíssima profundidade poética.
as palavrinhas arranjadinhas por categorias.
os pontos finais, as vírgulas, as exclamações e os parêntesis. ai os parêntesis. [quando tiver um cão hei de apelidá-lo de parênteSI. assim mesmo, no singular.]
as palavrinhas de um caderno, escritas numa paragem de autocarro, em Benfica ou em frente ao rio - que sempre fica melhor - as palavrinhas que são as minhas.

o paradoxo de tudo isto e de mais um pouco.



de escrever sobre isso e publicá-lo num blogue todo moderno.

o que é um paradoxo, afinal?

22 janeiro 2012

grandes dias

há dias maiores que um dia normal.
dias largos, grandes, cheios.

há dias surpreendentes.

20 janeiro 2012

Dançar para levitar

a dança como instrumento, como piano, contrabaixo, violino.
a dança como ansiolítico. como pausa. como mergulho no mar.
a dança como silêncio cá dentro.
corpo solto. corpo leve, livre.
num intricado entrelaçado feito de minutos quase eternos, quase infinitos, ao som de uma mazurka.
corpos desconhecidos que conversam entre si. que se seguem.

[ electricidade estática ]

"danças?"
"claro."

assim começa a história.
não se conhecem, nem tão pouco sabem o nome um do outro.
sabem apenas que dançam. e conversam a dançar. a dança como conversa.
ele fala, ela responde. ele fala, ela responde.
duas mãos que se beijam.
quatro pernas que se cumprimentam.
dois braços que se abraçam.
dois corpos que se guiam.

um instante. alguns minutos. uma vida inteira.